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Crédito: Vinicius Mendonça/Ibama

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EM FOCO - PERSPECTIVA

Com Brumadinho, a engenharia que virou suco agora é lama


BRASIL - POR REGIS GEHLEN OLIVEIRA - Há uma relação direta entre a tragédia de Brumadinho, ou as rupturas em viadutos em São Paulo, e a involução da engenharia. O contexto cultural das empresas e da política explica.

Na década de 80 ficou famosa na av. Paulista em São Paulo a lanchonete
"O engenheiro que virou suco", de um desempregado da área que montou esse negócio por falta de perspectivas. Foi no auge da crise financeira, de inflação elevada, após o chamado milagre econômico da Ditadura Militar, que nos deixou um legado de muitos anos de dívida a pagar. Nessa época os Diretores Financeiros foram as figuras de destaque, pois gerenciar a moeda que se evaporava era de vital relevância.

Antes dos anos 80 a figura mais importante de qualquer empresa era o Diretor Técnico. O modo usual de trabalho era a qualidade para melhores resultados.

Os conceitos mudaram depois do período inflacionário, e Diretor Comercial passou a ser o manda-chuva. O chamado
"rolo" se expandiu, e ficou mais fácil ganhar dinheiro por meio da corrupção do que por melhores soluções de engenharia. Diretor Técnico virou uma figura quase irrelevante.

No setor público, em período recente, foram feitos concursos para engenheiros com trabalho mensal remunerado a dois salários mínimos. Por outro lado, as categorias jurídicas ganharam espaço, com procuradores, promotores e juízes ganhando acima do teto constitucional. Estes têm hoje poder de parar obras, decidir métodos de licitações e contratações, com conhecimento de leis, mas sem qualquer base técnica ou experiência da vida real das empresas.

Sob o ângulo do dinheiro, a cultura orçamentária brasileira, tanto no setor privado quanto no público, segue a sua linha tupiniquim. Em geral são alocadas verbas para projetos novos e poucos recursos para manutenção.

Assim, nesse curso, assistimos à lama de Mariana, aos viadutos que foram quase à lama em São Paulo, à lama da Lava Jato, à lama de Brumadinho e a muitos outros rios de lama. Involuiu a engenharia, falta engenharia.

Quem é o maior culpado disso? Os próprios engenheiros, agentes passivos nesse processo todo, centrados no seu mundinho cada vez menor, com rabos presos, sem se comporem para ter voz e poder, dando tiros na água, até que... Essa água virou lama. Como diria Zeca Baleiro na canção o
"Funk da Lama":

"Tanto faz se é homem do ano ou mulher pera
Tanto faz se é Bolsonaro ou se é Gabeira,
Você vai ter que responder pelo o que faz,
Você vai ter que responder pelo o que diz

Bota as mãos nas cadeiras vai até o chão com graça
A moral do chão não passa,
...
Bota a mão na consciência
...
O mundo tá atoladinho, o mundo tá atoladinho na lama"


Eng. Regis Gehlen Oliveira é diretor da ConVisão-CNC. É empresário há 27 anos, formado em engenharia na Poli-USP e especializado em administração de empresas pela FGV-SP. Foi subprefeito e diretor superintendente de obras do município de São Paulo. Foi fundador e coordenador geral do Construética (Comitê de Práticas e Ética na Construção) e vice-chairman do Comitê de Construbusiness da Amcham (Câmara Americana de Comércio).


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PUBLICAÇÃO DE 1 DE FEVEREIRO DE 2019


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Tags  em foco, perspectiva, convisão, brasil, br, brasil, economia e política


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